O anúncio de um acordo provisório entre Estados Unidos e Irã foi celebrado pelo presidente Donald Trump como uma “vitória total”. No entanto, uma análise mais cuidadosa revela que o pacto ignora justamente os pontos que motivaram o início da guerra: a mudança de regime em Teerã, o programa nuclear iraniano e o uso de mísseis balísticos. A aparente conquista pode, na prática, significar apenas uma trégua temporária em um conflito que continua sem solução definitiva.
O contexto da guerra
Em fevereiro, os Estados Unidos e Israel decidiram bombardear o Irã com o objetivo de eliminar o líder supremo Ali Khamenei. A justificativa apresentada por Trump e Netanyahu se apoiava em três pilares: derrubar o regime dos aiatolás, destruir o programa nuclear e limitar o arsenal de mísseis balísticos.
1. Mudança de regime: promessa não cumprida
Trump e Netanyahu chegaram a conclamar os iranianos às ruas para derrubar a ditadura e instaurar uma democracia. O resultado, porém, foi o oposto: após a morte de Khamenei, quem assumiu o controle foram os comandantes da Guarda Revolucionária, fortalecendo ainda mais a ditadura. Em vez de liberdade, os iranianos enfrentam um regime mais rígido e militarizado.
2. O programa nuclear: apenas atrasado
Os bombardeios atingiram instalações de enriquecimento de urânio e eliminaram líderes do programa nuclear. Isso atrasou significativamente o projeto iraniano, mas não o encerrou. O futuro do urânio iraniano continua sendo pauta de negociações, especialmente preocupando Israel, que vê no tema uma ameaça existencial.

3. Mísseis balísticos: questão ignorada
O arsenal de mísseis iranianos, capaz de atingir Israel, foi um dos principais argumentos para justificar a guerra. No entanto, o tema sequer foi incluído nas negociações do acordo. Essa omissão gerou forte insatisfação em Tel Aviv, onde ministros de ultradireita já afirmaram que não pretendem respeitar os termos do pacto e cogitam novos ataques contra o Líbano.
Tensões entre aliados
Embora tenham atuado juntos na ofensiva contra o Irã, Trump e Netanyahu se distanciaram durante as negociações. Conversas telefônicas entre os dois líderes foram marcadas por tensão e divergências. O resultado é um acordo que não atende plenamente aos interesses de Israel e deixa os aliados mais afastados.
A “vitória” de Trump
Apesar das falhas evidentes, Trump insiste em proclamar vitória. Essa postura reflete seu estilo político, baseado em narrativas de sucesso mesmo diante de resultados incompletos. Para o presidente norte-americano, o acordo é um troféu a ser exibido, ainda que não represente uma paz sustentável.
O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã é menos uma solução definitiva e mais uma pausa estratégica: ignora as causas centrais da guerra e deixa em aberto os temas mais sensíveis, como regime político, programa nuclear e mísseis balísticos.
Sergio Gonçalves
Impactos regionais
O fortalecimento da Guarda Revolucionária no Irã, a continuidade das negociações nucleares e a insatisfação israelense indicam que o Oriente Médio permanece instável. O pacto pode reduzir temporariamente os bombardeios, mas não resolve os fatores estruturais que alimentam o conflito. A paz duradoura ainda parece distante.
O acordo provisório entre Estados Unidos e Irã é mais uma trégua política do que uma solução real. Ignora as causas centrais da guerra e deixa em aberto os temas mais sensíveis: regime político, programa nuclear e mísseis balísticos. Enquanto Trump celebra uma vitória simbólica, a realidade mostra que o Oriente Médio continua vulnerável a novos confrontos.